Satori










zzz zzz zzz... zzz...  que pé no saco!


Há algo que esta realidade não preenche. Não satisfaz

Domingo, 17h30. Faz frio. Dou uma passada no Templo Votivo.

Algumas pessoas, na maioria idosos como eu (risos). Detesto dizer isso "como eu" - porque, na verdade, ninguém vai me comer (não vou permitir isso).

Cada um que acredite no que quiser. Eu acredito nisso, uma realidade quase que metafísica, sobrenatural, mas que, no meu simplório modo de ver as coisas,  não chega nem mesmo a ser um conceito, ou um pensamento, mas apenas uma estranha e profunda percepção.

Uma realidade invisível, isto é, não facilmente perceptível pelos nossos sentidos. Uma realidade presente, mas que não podemos constatar, e sim somente intuir. Talvez seja o que os religiosos chamam de "O Reino de Deus".

Uma realidade que está além deste mundo físico, ilusório e perecível.
Uma realidade viva, dinâmica, que acontece, ocorre, se transforma, a todo instante, aqui, aí. Em toda parte, para sempre. Amém.

Algo que para mim é muito difícil racionalizar, descrever, digitar, escrever.
Porque escapa ao controle do ego, esse eu individual
Como um sonho
Um sonho que apenas é possível experimentar descontroladamente (sonhar) mas nunca expor, reproduzir fielmente, integralmente. E que, contudo, é real.


Penso em uma realidade pré-existente e atemporal, ou seja, que sempre existiu, que existe, e sempre existirá - e, só nesse contexto, se transforma, ou seja, fora dessa nossa noção linear de tempo e espaço. Afinal, ao menos é o que se diz. O tempo e o espaço são infinitos. E, ainda, tempo, da forma que concebemos, não é uma realidade física, mas, antes, uma abstração mental, um cálculo. Não podemos "estudar o tempo". Não há um "tempo", que não seja resultado de uma medição, que não esteja relacionado a um determinado observador. 

Não que eu queira ficar aqui enrolando, mas é que há em mim uma necessidade latente e muito verdadeira de pôr pra fora essa percepção. Vomitar o próprio coração?

Por isso, muitas vezes, recorro a esse discurso literário, artístico, e não linear; que, acredito aproximar-se muito mais do meu desconhecido objetivo.

Por que também não acredito ser possível excluir-se dessa Realidade, e dela tentar falar.
Por que, no fundo, penso que, na verdade, nem dela precise de fato falar
porquanto sei que quase todos também já a perceberam, ou experimentam.

Outros porém, não.
Vivem mergulhados na ilusão de uma realidade meramente material, imediata e temporal, parecendo nunca se dar conta dessa realidade que transcende
Essa realidade que não depende sequer da minha ou da sua percepção,
e nem de nenhuma explicação.

...No Templo Votivo, não consegui me concentrar. Apena desacelerei um pouco a mente e voltei correndo pra casa.

Ultimamente tenho sentido extrema necessidade de aquietar minha mente;
esvaziá-la, livrar-me de vez de toda essa tralha,
valores e objetos culturais, e apenas sentir a brisa passando sob minhas narinas. Perceber o silêncio que há lá fora, mas que não consigo ouvir, porque estou "muito atento" aos ruídos produzidos pelas máquinas humanas, pelas vozes e blá blá blás egóicos e insanos, que a todo instante tentam apenas afirmar a existência de ilusórios e infinitos eus: o indivíduo. Mim José San; you Jane! 

Mas há muita matéria escura ao meu redor a ser considerada. 
Há muita informação e conhecimento nessa realidade, e que ainda não captamos com nossos cérebros limitados, com nossas mentes deturpadas, narcisistas, e que, talvez, nunca venhamos de fato a "perceber" - porque somos naturalmente limitados também.
Mas há quem ouse dizer que sua capacidade intelectiva não tem limites (?).
E quem diga que toda informação pode ser racionalizada (?)

Creio que algumas informações, como as contidas num sonho, num sentimento, podem apenas ser vivenciadas, experimentadas, mas nunca demonstradas.

Assim, permaneci no Templo Votivo, anônimo entre alguns fiéis, apenas por alguns minutos.  Depois saí sem conseguir, sequer, rezar um Pai-Nosso inteiro a contento.

Meu Deus! E agora estou tentando "congelar", reproduzir aquele momento, descrevendo-o, mexendo os dedos. Como?! Se nem sequer consigo pensar, entender, imaginar o que se passou ali.

17h30.  Passo em frente às Lojas Americanas, que está fechada, e vejo um morador de um rua. Um senhor, negro, forte, atarracado, provavelmente alienado mental, o qual já avistei várias outras vezes, sempre quieto, com as roupas sujas, e um chapéu branco, todo amassado na cabeça, como o daquele ratinho "Chumbinho", o personagem de um desenho animado. O homem nunca fala nada. Passa os dias e as noites sempre sentado na mesma esquina, ou em frente aquela loja de departamento. Quase não se mexe. Fica sempre olhando perdidamente para frente, sentado entre algumas sacolas e sacos cheios de panos sujos. 

Você não imagina como é deprimente, constrangedor, para  mim, enquanto ser sensível, ver, ou melhor, perceber, sentir, uma coisas dessas (!) Um ser humano igual a mim (!) Sem a mínima chance, sem meios de sair daquela situação, sem forças, sem apoio, sem um outro semelhante que dele se aproxime e pergunte: "E aí? O que que há? Quem é você afinal? Um Jesus Cristo? Um Buda moderno? Qual seu nome? O que você precisa?

E eu, ser sensível, o máximo que consigo fazer, é ficar aqui, mexendo os dedos, blogando, postando uns "rocks da hora" no FB, dizendo: "Ai; como eu sou sensível.... blá blá blá... a realidade... blá blá blá... matéria escura... blá blá blá" - e mais blá blá blá...

Deprimente isso.

Passo pela portaria do prédio, e lá está o seu Joaquim atrás do balcão de pedra, lendo a seção Mundo do jornal de domingo. Será que ele entende? Eu, sinceramente, não estou entendendo mais nada. Nem tenho mais coragem de ligar a TV e ver sempre as mesmas notícias. Sempre as mesmas meia dúzia de notícias em todos os canais, no mundo inteiro. E, aquele negro ali, invisível para essa mídia, para esse sistema, esse Estado de Coisas Absurdas.

Já na kit, penso em preparar meu Ovomaltine, meu cereal Kellogs. 
Que horror!
Abro a janela e me sinto entre as nuvens, no 14º andar
E lá está o negro. Minha visão não é muito boa. À distância, apenas posso vê-lo realizando pequenos movimentos. Talvez esteja arrumando seus panos, preparando-se para dormir. Afinal, está anoitecendo.

Bom... Que horror! Como posso passar manteiga em minha fatia de pão integral, que tanto bem faz ao meu intestino, vendo aquele outro humano em situação tão crítica de existência?

E o pior é que eu tenho ciência de que ele não é o único. Então essa sensação de horror se multiplica, centenas, milhares de vezes dentro de mim.

E eu que passei o domingo inteiro blogando, choramingando, pensando: "Ai, eu e os meus probleminhas existenciais... Não tenho um Ford Escort, uma TV tela plana... Ai, que pobre eu sou. Oh, céus! O leite está derramando no fogão!".

Volto à janela, puxo um pouco a cortina de cor alaranjada, 
afinal, sou ou não sou um seguidor de Krishna?
E lá está o homem...

E eu estou constrangido, sofrendo, que crueldade fizeram comigo?

Ajoelho-me e peço a Deus que faça algo por aquela criatura, se quiser, é claro
Se for o caso de fazer, é claro.
Porque eu não sei nada sobre essa realidade em que estou vivendo.
Será ele mesmo um pobre alienado?
Ou o pobre, na verdade, seria eu?
Um pobre de espírito. 

Não. Não vou conseguir tomar meu café se não fizer nada por aquela criatura. 
Ao menos por aquela, já que não posso fazer por todas, por todas outras milhares de criaturas abandonadas por esse sistema econômico, cultura, político e  escroto.

Pego minha jaqueta de porco correndo no armário, a carteira, os óculos, a dentadura e o pendrive, desligo o fogão, aperto o botão T de térreo, e desço correndo, olhando-me nos espelhos fixos nas paredes do elevador "como sou lindo - peno. E agora, bonzinho ainda por cima" - concluo, olhando-me mais de perto no espelho, selecionando alguns fios de pelos brancos no cavanhaque.
Que horror! Seria mais apropriado dizer.

Enquanto o elevador desce, as portas se abrem em andares alternados, e sempre entra uma nova criatura. Uma mulher ridícula com cara de rúcula, que pensa ser atraente; um idiota vestindo uma camiseta do Palmeiras, e que sequer (co)responde ao meu olhar; um garotinho de uns oito anos, gordinho, com um boneco Max Steel nas mãos, chorando, puxando a saia florida de sua mãe, uma senhora magra e linda, alta mas imóvel como um manequim - e o menino diz, soluçando: "Eu queria um Falcon!" - Que horror! Coitadinho; tia, dá um Falcon pra ele, vai (!)


Quando a porta se abre, no térreo, as pessoas tentam desesperadamente, cada qual, ser a primeira a sair, e umas empurram as outras, olham-se com desprezo, bufam, outras pisam em meus pés. Lá fora, o dia ainda não escureceu totalmente. A tarde parece até avermelhada, como se o mundo estivesse incendiando. Eu sou um dos últimos a sair do elevador. Atravesso a rua correndo entre os carros, e me dirijo até aquele homem. Ele está lá, no mesmo lugar, sentado à porta das Lojas Americanas.


Me aproximo. Nossa, que cheiro horrível. E aí? Você já comeu? - pergunto, com voz pausada e num tom bem íntimo: "...Já comeu?


Ele está de pé. Responde que sim. Parece satisfeito e me sorri, limpando os lábios grossos com as mãos sujas e pesadas. Parece feliz, alienadamente feliz.

Percebo, a seguir, que estava terminando de virar uma garrafinha de Coca-Cola goela abaixo, e que há um pratinho descartável cheio de restos de comida, carne, farofa, e talheres no chão ao seu lado (que quase me dá água na boca). 


Quem é na verdade este Homem? - penso, agora mais intrigado do que antes
Quem alimentou este Homem? - penso, agora mais horrorizado que antes


Quem, na verdade, vive de forma alienada essa realidade? Ele ou eu?

Talvez ele esteja à margem nesse sistema escroto que falei acima
Mas será que, ele ou eu, estamos de fato alienados da realidade?


Quem é o louco? Ele ou eu?
Ele está rindo, e eu alucinado.
Ele não está pensando em nada.
E eu penso que penso sobre algo. O que, afinal?
O que é pensar?
O que é blogar?
O que é curtir rock?


Acho que estou com algum problema.