Devo estar completamente maluco. Acabei de ver, na Francisco Glicério, ao meio-dia, um sujeito todo vestido de azul, pilotando a toda velocidade uma bicicleta toda azul, na contramão. E o pior é que os carros, que vinham em sentido contrário, desviavam maravilhosamente da figura, sem qualquer incidente mais grave.
O duro de envelhecer é que o pessoal lá do escritório fica achando que eu entendo realmente das coisas, que já sei tudo de tudo, e que não faço mais cagadas como os colegas mais jovens. Calma, gente (!), não é bem assim; melhor ler o que eu escrevo, antes de mandar esses pacotes pra frente.
Fui, então levar umas cartinhas na agência dos Correios, e acabei dando uma passada rápida num sebo, onde fui atenciosamente atendido por uma bicha super simpática, que tinha um bafo estranho de pinga e chocolate. A tia me tratava por "meu bem”, o que me causava um certo constrangimento; mas, tudo bem, deixa pra lá essas formas pegajosas de tratamento. A meu pedido, com a maior cortesia, colocou para tocar, em uma velha pick-up caindo aos pedaços, todas as faixas de um CD de um antigo álbum do Roxy Music. Na verdade, já que estava indo ao Correio, só queria relembrar meus tempos de office-boy, ouvindo "For your Pleasure"; mas, tudo bem, com tamanha gentileza, eu posso ouvir o disco inteiro, imaginei. Ao final, solicitei o auxílio de seus longos e sensíveis dedos moles para ejetar o CD daquele sarcófago empoeirado. Me desculpe, diria-lhe logo em seguida, mas, 50 paus por um CD velho desses é muito. Entretanto, tão meigo fora aquele contato, que eu apenas lhe esbocei um sorrisinho amarelado e dei no pé.
Algumas pessoas parecem se divertir a valer tentando aloprar o próximo.
A mim não, por favor (!)
A mim não, por favor (!)
Não sei por que as pessoas gostariam de ler poesia (?)
Eu mesmo detesto esse gênero de escrita.
Acho isso uma coisa asquerosa, tipo roupa de festa ou de missa
E eu prefiro sempre usar tênis e jeans.
Acho isso uma coisa asquerosa, tipo roupa de festa ou de missa
E eu prefiro sempre usar tênis e jeans.
Os pensamentos e reflexões parecem diluir-se à medida que recobro a consciência.
Estarei tentando resgatar informações que estavam no inconsciente?
A beleza (estética) parece ser, ao menos para mim
um meio para transmitir informações (algum conhecimento?)
Sinto como se me desgastasse mentalmente
“carregando”, fazendo o download dessas informações
Poderia então haver informação numa obra de arte?
Em contrapartida a toda informação racional?
Tenho novamente a impressão de sentir aquele cheiro de pinga e chocolate no ar, mas a sensação logo desaparece
Na lanchonete Pão de Queijo dois homens se encontram
Quando um passa a brincar com o outro, fazendo insinuações maliciosas
de situações que parecem remeter à infância de um deles.
Seria possível preservar a unidade da mente no tempo e no espaço
Infinitos?
Reflexões: o corpo, de fato, se deteriora com a morte
Ou apenas se transforma? No quê?
Já um objeto de metal – creio que não
A luz se deteriora viajando no espaço e no tempo?
O que conta é a estrutura atômica? Ou a loucura?
O que produz Luz?
O que produz corpos?
Volto a dormir...
Vozes femininas na kit vizinha me acordam, me excitam...
Então eu sonho que sou um cachorro...
Não é possível criar realidade com o pensamento
O vento folheia uma revista Isto É jogada no meio da rua
Nada tem significado real para mim quando estou sonhando
Nem mesmo o Chevette cinza
que, com a seta ligada, aguarda na esquina para entrar à esquerda
Talvez apenas Lucky, a cadela preta,
parada na calçada, do outro lado da rua, pensando em Nada
me compreenda
me compreenda
Minha cabeça dói
Preparo um mingau de aveia
tomo apenas metade e guardo a outra metade para mais tarde
Penso que estou morrendo
Mas não vou querer deixar a outra metade
sobre a pia à noite toda, dando sopa pras baratas
Não estou conseguindo dormir
Ouço gritinhos se perdendo no freezer
Minhas vizinhas conversam
gritando como ratazanas histéricas
Lâmpadas fluorescentes estouram
Ouço-as agora junto à porta, se despedindo, dando beijinhos
gritando como ratazanas histéricas
Lâmpadas fluorescentes estouram
Ouço-as agora junto à porta, se despedindo, dando beijinhos
Um vento forte assobia e bate contra os vidros da janela
no alto da torre – me cago
Penso que os T-Rex alados estão voltando
Imagino haver uma criatura horrível
de olhos vermelhos
composta de matéria escura
me espreitando embaixo da cama
Achei minha nota de 10 paus
O que significa que ainda não estou completamente doido
Fodam-se os chineses!
Dia dos pais
Dia dos pais
Ganhei uma porrada de sabonetes da Natura
Um para lavar o roso, outro para as mãos, outro para os pés,
um creme para barbear, outro pós barba...
de modo que vou ter que etiquetar tudo no armário do banheiro
se não quiser me enganar, e passar o sabonete da bunda no rosto.
um creme para barbear, outro pós barba...
de modo que vou ter que etiquetar tudo no armário do banheiro
se não quiser me enganar, e passar o sabonete da bunda no rosto.
Passei aquele perfume horrível do Boticário no peito e fui para escola.
Hoje foi aniversário da dona Leda.
Descemos todos ao 7º andar para tomar guaraná sem gelo,
comer pipoca de microondas e cantar parabéns.
Descemos todos ao 7º andar para tomar guaraná sem gelo,
comer pipoca de microondas e cantar parabéns.
Todos parecem idiotas quando estão em repouso;
mas, na verdade, quando acionados,
o mais besta entre nós enxerga até mesmo pelo olho do cu
mas, na verdade, quando acionados,
o mais besta entre nós enxerga até mesmo pelo olho do cu
18h30. Uns estão jogando paciência no computador, outros assistem Jaspion num laptop. Num corte de câmera, todos se transformam em delicados,
digo, dedicados funcionários do Aparelho Burocrático.
digo, dedicados funcionários do Aparelho Burocrático.
Na sala ao lado dona Rebeca fuma um Slim e canta Djavan,
enquanto pinta alguns tubinhos de macarrão parafuso com tintas de artesanato.
Depois ela os traz até a minha sala, onde pensa que eu me encontre,
e pergunta: “Não ficou bonitinho, Seu José?”
enquanto pinta alguns tubinhos de macarrão parafuso com tintas de artesanato.
Depois ela os traz até a minha sala, onde pensa que eu me encontre,
e pergunta: “Não ficou bonitinho, Seu José?”
Credo, cruzes! – penso, suspenso atrás das cortinas.
Seu José, na sala em frente, é a cara da Mafalda.
Pokemon retorna, enxugando as mãos na própria roupa, e tranca a sala, escondendo as chaves em uma das gavetas de sua mesa de aço.
esquecendo-se que a janela está aberta, e que eu posso voar.
esquecendo-se que a janela está aberta, e que eu posso voar.
Até conhecer aquela pessoa, cujo nome, é óbvio, não posso aqui mencionar, porque ela ainda vive, eu pensava ser a pessoa mais idiota deste Planeta.
Alguém na sala ao lado chama: “Pedro!” – e a criatura levanta de sua poltrona e sai correndo, desesperada, arrancando fios, levando no peito o mouse, e se apresenta esbaforida ao chefe; “Eu!? O senhor me chamou?”
Que idiota.
Às vezes eu precisava descer, dar umas voltas pelo quarteirão, ir até o Café Regina, recompor meu Estado de Espírito Santo, ufa (!), e só então continuar.
Desde cedo, ainda criancinha, aprendi eu mesmo lavar minhas meias brancas, minhas cuecas pretas.
Subia num banquinho de madeira, feito pelo tio Arthur, passava a pedra de sabão nos meus paninhos sujos, e ralava os dedinhos na borda ondulada de cimento do tanque. Nem sempre tudo ficou tão claro para mim, como agora está...
No entanto, apenas bem mais tarde na vida pude perceber, ou melhor, acreditar, quão hipócritas e falsas algumas pessoas podem ser. Foi daí que me surgiu a ideia de usar expressões do tipo “sorriso de jacaré”, “amigo urso”, “andar de borboleta”, "olhar de purpurina", e outras que passei a usar em alguns manuscritos (que nunca vou publicar aqui, é claro).
Antes das aulas de datilografia, então, nem sequer sonhava com essas aberrações estéticas e existenciais.
O Sr. Nésio é uma pessoa absurda e deturpada. Ele tem uma visão deturpada da realidade. Adoro essa palavra – “deturpado”. Acho tudo muito deturpado hoje em dia. Olho as manchetes nos jornais, e as notícias me parecem sempre as mesmas; meia dúzia de notícias, repetidas em todos eles. Que mundo pequeno (!?).
Não dou esmolas; mas sempre que me pedem uma grana para comprar um pedaço de bolo de chocolate, um café, cigarro, ou mesmo uma dose de pinga, eu não resisto e dou mesmo. É foda viver neste mundo hipócrita e limitado. Ninguém merece.
Agora estamos todos assistindo a um novo episódio de Satangos no laptop do chefe, enquanto ele vai ao banheiro destilar sua filosofia.
Estranho (!) parece que eu estou cheirando a pinto.
Voltou. Agora que eu me liguei; ele se parece com um Tin-Tin inflado.
No Mundo de Boby
Quando o Coronel Brochado retorna, chacoalhando suas estrelas no peito,
o ar-condicionado para de funcionar, e até as lagartixas no teto se movimentam.
o ar-condicionado para de funcionar, e até as lagartixas no teto se movimentam.
Aqui somos todos pessoas reprimidas e bem informadas, por isso nos divertimos a valer, rindo das cagadas alheias e dando nota dez para nós mesmos.
