Estou ficando enjoado. Faz 20 anos que Aquilo existe. Não consigo mais escrever, porque não consigo ler o que escrevo, tamanho é o asco que sinto por essa atividade alienante, que afasta os homens de bem da realidade. Apenas escrevo na tentativa de transportar toda essa realidade para algum lugar (minha cabeça?), onde pudesse observá-la melhor, para assim compreendê-la. Mas como, se eu mesmo faço parte dessa tal realidade?
Assim, já estou farto de ficar atribuindo significado às coisas, transportando tudo para uma página, um ponto no vácuo. É um grande erro viver assim, atribuindo sentido a tudo e a todos. Certamente deve haver algum sentido nessa realidade, mas não serei eu que vou atribuí-lo.
Coçando o nariz. Todo mundo parece desconfiado hoje. As pessoas mais educadas parecem as mais falsas. Não suporto pessoas com pose e aparência de “perfeitas”. Uns dizem que está frio, outros se deslocam de forma nervosa, pisando no carpete como se dessem patadas. Depois me olham, como se desconfiassem de algo, como se eu soubesse de algo, um riacho de mijo que flui no âmago de cada um. Penas molhadas. Todos fogem do silêncio de si mesmo; preferem se arrebentar na superfície do Espelho.
Então eu me recolho. 30 anos vivendo numa jaula confortável, carimbando papéis, ouvindo reclamações e opiniões das mais diversas e absurdas, sem concordar com nada. É tudo mentira o que se diz. Apenas um discurso, propaganda do ego.
Não se conhece a verdade. Apenas duvidamos de tudo o tempo todo; mas alguns fingem saber das coisas, serem os donos da razão, da verdade, e até conseguem convencer alguns outros tolos de que realmente sabem alguma coisa, que têm algo a dizer. Recheiam então seus discursos com palavras técnicas, termos incomuns, bonitos, estranhos, como se falar fosse vomitar bolachas Trakinas.
Não há água. Acordei vomitando. Tudo teve início ao final de um sonho, ou um
pesadelo, não sei. Por quase duas horas sentado em espinhos, escrevendo versinhos idiotas do tipo, atirei um limãozinho na torre de Belém, deu no cravo, deu na rosa, deu
no peito de meu bem. Mas agora a Sra. X dá aulas de catequese na igreja do bairro, enquanto meu filho D. Pedro 1º usa uma camiseta azul com um logotipo "Crisma" nas costas. Ele precisa pôr aparelho nos dentes. Zelma, minha filha, borda panos de prato em silêncio na cozinha com linhas em tons degradê, enquanto meu outro filho, Zeca, pula como um sapo pelo chão da sala, pedindo mais pipoca.
Às vezes, na sua presença, eu me sentia como se fosse um cachorro
Desculpe, eu não minto. Eu não sei latir
Tudo pode ficar como está, na faz a menor diferença agora.
Sinto-me como se estivesse vivendo como Maria no texto bíblico.
Noite. Vejo-me num caminho, uma estrada de terra, diante de uma
Floresta Misteriosa Estou acompanhado de um amigo.
Não sei se devo prosseguir por esse caminho e adentrar a escuridão.
O amigo insiste que devemos prosseguir,
e tenta me convencer de que não temos outra alternativa.
Noite. Vejo-me num caminho, uma estrada de terra, diante de uma
Floresta Misteriosa Estou acompanhado de um amigo.
Não sei se devo prosseguir por esse caminho e adentrar a escuridão.
O amigo insiste que devemos prosseguir,
e tenta me convencer de que não temos outra alternativa.
Estou fedendo, dona Leda.
Não há água. Não posso tomar banho. Telefone toca. Grilos.
Sujo assim, não sei se Puck
Sujo assim, não sei se Puck
a nova namoradinha, ainda vai querer sorrir para mim
deitar em meus cabelos de mendigo
deitar em meus cabelos de mendigo
seu olhar doce como o mel.
Dona Leda não anda, marcha, pisa.
Dona Leda não anda, marcha, pisa.
04h00. O cachorro menor late.
Abro a janela, e percebo que choveu um pouco durante a
Abro a janela, e percebo que choveu um pouco durante a
madrugada. Passo a mão pelos cabelos e olho a terra úmida.
Não consigo mais dormir
Não consigo mais dormir
05h00. Apanho a Bomba de Fritz sobre o guarda-roupa e caço o
maldito pernilongo, que voa de um lado ao outro no quarto
passando bem próximo ao meu nariz,
tocando seu violino desafinado.
passando bem próximo ao meu nariz,
tocando seu violino desafinado.
Talvez fosse melhor colocar cimento nos ouvidos e nos olhos.
Não é fácil ouvir e escrever tanta abobrinha,
Não entendo sobre nada.
Não entendo sobre nada.
Não domino nenhum assunto específico. Não sou evangélico
Não consigo decorar sequer o alfabeto
Não consigo decorar sequer o alfabeto
ou a conjugação do verbo to be.
Não que eu queira convencer alguém
Não que eu queira convencer alguém
de que tenha um dia agitado e interessante. Muito pelo contrário, meu dia é
lento e horrivelmente abafado,
Eu apenas tento de todas as formas suportar isso,
vendo os fatos sob outros ângulos.
Só quero cagar pra esse sistema.
Então, nunca me confunda
Eu apenas tento de todas as formas suportar isso,
vendo os fatos sob outros ângulos.
Só quero cagar pra esse sistema.
Então, nunca me confunda
com o que escrevo.
Dia estranho. Telefone toca. Vejo dois ladrões carregando
Dia estranho. Telefone toca. Vejo dois ladrões carregando
baldes com mudas de babosa na rua.
Observo-os com mais atenção quando passam
Observo-os com mais atenção quando passam
defronte ao meu portão azul.
A namorada não veio. Antes, um pimpolho pardo,
A namorada não veio. Antes, um pimpolho pardo,
sujo, um franguinho fraco de cabelos e oxigenados e dedos finos,
já cansados de dechavar a erva.
já cansados de dechavar a erva.
Na curva em U, outro ladrão talha um estilingue numa forquilha de goiabeira.
Nuvens cinzas se aproximam lentamente como caravelas de Cabral. Sol pálido.
Dia estranho. Prosseguir?
O computador pifou
Dia estranho. Prosseguir?
O computador pifou
