Sapos






Ouvi dizer que, certa vez, num fim de tarde, um velho sapo nadava tranquilamente, ou melhor, boiava de costas em uma lagoa, ou numa piscina, sei lá, curtindo Frank Zappa, quando, de repente (do nada!), surgiu em uma das margens um escorpião terrível, daqueles de pele vermelha e enrugada embaixo do pescoço e com a barba por fazer,  o qual, se dirigindo ao sapo disse:

"Ei amigo! Será que você não poderia me ajudar? Tá um puta calor. Você não poderia me transportar em suas costas até aquela outra margem para apanhar umas latinhas de Skoll? A água está tão fria e eu não sei nadar tão bem quanto você, mas tenho um bom papo, e, se me ajudar, poderemos trocar altas ideias a respeito da vida selvagem nesta Floresta..."  

Note-se que, apesar de já ser um fim de tarde, o Sol ainda estava bem quente, o que, por si só, já poderia sugerir alguma anormalidade naquela situação. Uma aparição? Estaria o pobre e velho sapo delirando?

Assim, o sapo fez que não ouviu aquelas palavras suplicantes, ditas em voz seca e esganiçada, e continuou tranquilamente boiando e peidando na água, o que o impulsionava e fazia com que ficasse dando voltinhas na superfície da Lagoa Escura.

Nadando de costas, fechando um dos olhos, o sapo já podia até avistar, àquele horário, alguns pontinhos luminosos que surgiam no Céu. E, assim, se divertia a valer, e nem se importava com o escorpião.

Mas o nosso amigo sapo era mesmo um bicho bobão. Ao mesmo tempo em que se deleitava ouvindo Zappa e observando o surgimento de pequenas estrelinhas no firmamento, seu limitado aparato intelectivo fazia surgir em sua mente alguns pensamentos entrecortados, do tipo: "Pô, ajuda ele!" ou "Olha só que bichinho vermelho e maneiro", ou ainda "E aí? Preferes ficar sozinho, olhando as estrelas distantes? Ajuda o bicho? Você não é bom?". E esses pensamentos entrecortados não davam sossego ao sapo, de modo que ele já não conseguia, nem mesmo com os dois olhos bem abertos, sequer enxergar qualquer estrela no Céu. Nem Vênus! Nem mesmo o Sol! Tudo agora parecia tão turvo ao nosso amigo sapo. E ele entrou em desespero:


Sim, sim, amigo escorpião! Espere um pouco. Podemos conversar. E, peidando um pouco mais, o sapo aproximou-se com algum esforço da margem onde estava o escorpião, e ainda o indagou: "Mas... você não vai me picar com seu ferrão?". Ao que, maroto, o escorpião respondeu: "Pára de ser besta! Se eu te picar, nós dois afundaremos". Ao que o sapo concluiu "...É, isso faz sentido" - e então disse, "Sobe aí, camarada; vamos lá!"


E assim foram os dois. O escorpião lindo e sorridente nas costas do velho e bondoso sapo, que peidava a valer, a fim de impulsionar seu corpo já cansado em direção à outra margem.


E já estavam bem próximos da outra margem, quando, de repente, de olho nas latinhas de Skoll, o escorpião tascou uma ferroada no meio das costas do sapo, pulando rapidamente para a terra firme.
Ainda agonizante, o sapo murmurou "Pô, amigo! Por que você fez essa sacanagem comigo?", ao que o escorpião prontamente respondeu:


"Sacanagem? Mas eu não lhe fiz mal algum. Essa é a minha natureza. 
Eu sou um escorpião; você não está vendo?"




Observações:


Muitas pessoas que lêem ou reproduzem esta parábola o fazem por motivos de ordem emocional, distorcendo seu sentido de forma tendenciosa, conduzindo assim para uma abordagem ético-moral. Isso porque a maior parte das pessoas, obviamente, se vê ou se sente como se fosse o sapo, achando que, "as outras" são os escorpiões.


Mas, nas verdade, essa parábola NÃO coloca isso: "o sapo é bom e o escorpião sacana";


Muito pelo contrário, a estória quer apenas demonstrar que os seres são de NATUREZAS DIFERENTES. O que não quer dizer que os "sapos" não devam ficar espertos em relação aos "escorpiões". Mas não se deve aqui fazer qualquer julgamento de ordem moral. 


O fogo também queima, mas, nem por isso, achamos que o fogo seja "mau", "sacana". Assim como o lobo que come a lebre também não é mau, ou o leão que janta a jovem anta.


Não se deve esquecer também, que, mesmo entre os que são "sapos", pode haver maldade. Sendo o contrário verdadeiro também. 


Penso ainda que alguém muito jovem ou imaturo poderia apegar-se facilmente ao aspecto visual e descritivo da narrativa, imaginando exatamente "sapos" e "escorpiões", quando, na verdade, pessoas são seres infinitamente mais complexos e imprevisíveis.


A meu ver, a estória apenas avisa: Fique esperto, atento; saiba discernir o que é uma coisa, e não outra. Não confunda alhos com bugalhos, escorpiões com lesmas, sapos com burros, e assim por diante. Cada coisa é uma coisa (e não outra). Fique esperto. Não se iluda com a aparência das coisas. Fique esperto. Só isso.


Parece-me também que alguns "sapos" gostam mesmo de ser picados (muito embora não assumam ou explicitem exatamente isso). Depois, posam de vítimas, buscando a compaixão dos demais seres da "Floresta", usando para tanto os mais sutis e diversos subterfúgios. Dá licença (!) Também não estou aqui pra isso...