Incompetência



Caro Augustus,

Você me pediu umas letras
mas eu não sei fazer serviço sob encomenda.
Tudo o que escrevo sai meio careta, depois que eu descobri aquela garota naquele blog

Mas eu posso te mandar uns rascunhos; e, se você quiser, pode fazer algumas alterações e adaptações, sei que lhe sobra talento.
Aliás, você já fez isso antes, e ficou muito bom...

Havia um homem das cavernas grudado com chiclete no teto.

Você é bem esperto.

Havia mais alguém comigo no banheiro.
E eu não consigo acelerar.

Precisamos salvar as baleias.
E as magrinhas também.

Precisamos aumentar o salário-mínimo e também as mini-saias.
Deus, salve a América do Sul.
Desperta a América Central.
Deixa correr esse rio banhado de suor.
Deixa sorrir os mendigos
que nos olham pelo retrovisor.

Minha vida não faz mais sentido. Pago o condomínio sagradamente todos os meses e, mesmo assim, em março, recebi um aviso, que havia uma pendência do mês de novembro/09, e isso está me deixando louco.

Minhas pernas estão cheias de baratas.
Não sei até quando vou suportar viver nesta kit.
Eu gostava mesmo era da minha casinha de barro.
Agora, a todo instante, ouço alguém acionando a descarga, 
no apartamento ao lado, no apartamento debaixo, no apartamento de cima.
Estou cercado de descargas por todos os lados.
Descargas hidráulicas e elétricas, barulho de TV e crianças brigando, assistindo os Teletubbies.

Às vezes quando cai um temporal eu tenho medo que Deus me encontre e mande um raio através do meu celular.
Eu carrego no bolso da jaqueta um molho de chaves.

Antes quando chovia e eu não a conhecia, eu apenas desligava o computador,
mas agora tudo é diferente, parece que eu estou brilhando, e eu fico de braços abertos na janela no 14º andar.  

Talvez eu seja atropelado por um helicóptero, ou destrave. 
Desta vez acho que Ele me encontrou.

Antes quando eu morava na casinha do João-de-barro lá no Japão,
e caía um temporal, eu só tinha que descer alguns degraus, que eu mesmo havia construído. E então eu me borrava de medo
Imaginava que o celular no bolso pudesse tocar ou que o molho de chaves na mesa atraísse algum raio.

Chove pra caralho no corredor e eu ouço notícias no rádio.
Ouço vozes na varanda, e não consigo mais dormir 
por conta de uma crise de rinite.
A ponta do meu nariz parece um chafariz inchado.
Então eu tomo 15 ml do meu xarope pra tosse.

E me desintegro. Não faço parte de mais nada.

A que realidade pertenço? Não sei mais o que eu pretendo?
Voltei a ouvir Bob Dylan e aquele som horrível do Pretenders.
Minha perna esquerda treme e eu estou sem sono.
Também ouço muito John Lennon e a Yoko Ono,
mas isso não leva a nada.

A realidade não é o que eu penso,
mas certamente o que você pensa está criando essa realidade,
que logo se desfaz...

O vento está soprando o meu topete pra direita.
Sou a junção de dois momentos.
Um menino corajoso e um velho mijão.

Quando o tempo acabar, voltarei a escrever aqueles versos escrotos
com todos os meus dedos, com todo respeito.
Perderei a vergonha e o medo,
e ligarei o computador. Adotarei alguma religião e um partido.

Enquanto seu lobo não vem, vou fazendo algumas adaptações
levando minha avó ao ginecologista 
e minha alma para fazer análise com uma psicóloga esquisita.

Estou urinando em pé, parece haver um complô.
Lembro-me da primeira noite em que passei aqui na kit
A cama tremia, mas agora minhas mãos estão ficando verdes.
Há um homem das cavernas e uma marionete grudada no teto.
Há mais alguém além de mim dentro da privada.

Então...
Tire seus óculos de sol na praia
e sorria ao psicopata da estação
no outro lado da plataforma.

Estenda lhe as mãos
e pegue sua Bíblia
Confesse, você também explora sua filha
e engana seu marido saindo com o patrão
Enquanto seu lobo não vem.
Enquanto não passa o trem para Carapicuíba.
Medo de dormir e sonhar
com você, com as mãos cheias de detergente
me apertando o pescoço
chupando os meus caroços.
Caso você não volte até domingo
farei uma operação de mudança de sexo
tirarei um novo RG com foto e terno no lugar
e blusa cor-de-rosa d'Avesso.
Caso você não note os meus links
e os desenhos que eu posto nos meus blogs 
com este notebook
me transformarei num Hulk.
Te aviso quando chegar o dia.
Caso você não volte até domingo.
Agora você deve estar acessando o SkyDriver
com um cachecol enrolado no pescoço.
Enquanto eu estou preparando o almoço
O frango que está assando no forno
é do tamanho de um pinto
mas eu não me importo.

Reparou como são pobres as minhas rimas?
Antes eu sentia tesão até pelas minhas primas
Mas agora que envelheci e rasparei a Bárbara Branca 
deixarei o topete cair com flocos FINOS de neve na testa
usarei Bobs e farei soar o alarme da estação...

Você gosta?
Continue tentando...
Que ridículo (!) A que ponto cheguei (!?)
Não sei se ponho meu pijama de listrinhas amarelas,
ou se ponho o de triângulos vermelhos invertidos (?)

O teclado do notebook parece completamente fora de si.
Constantemente preciso cruzar as mãos, da esquerda para a direita
e vice-versa, atrás de um c-cedilha ou mesmo de um ponto de interrogação!

Que ridículo? Quando criança eu queria pintar as unhas de preto, mas meu pai não deixava, ou melhor, ele nem podia saber que eu tinha um gosto desses. Posteriormente, já na fase adulta, quando me vi em situação econômica favorável, trabalhando na fábrica, e podia então pintar as unhas, acabei conhecendo uma bela menina de olhar trêmulo e voz sensual, que logon me cativou. E, então, nós nos casamos. E, novamente pude pintar as unhas de preto.

Finalmente, já no pós-mortem, ou seja, quando meu pai já não estava mais cá entre nós, e meu casamento se desmantelava como um castelo de areia em frente ao ventilador, e eu ainda me encontrava sóbrio, retornou-me então aquela ideia vazia, aquele pensamento besta de pintar as unhas de preto.

Agora, entretanto, eu já estava muito velho, e olhando para as unhas gastas percebia que não fazia mais sentido pintá-las com qualquer cor que fosse. Foda-se.
Que ridículo (!) diriam meus filhos. A que ponto cheguei?

Pela manhã passei pelo mercado municipal e comprei um aquário e um peixinho Beta de cor azulada, que chamarei de Berta, para me fazer companhia, e assistir comigo as partidas de futebol aos domingos na TV Bandeirante às 16h00.

A verdade é que eu cansei de ficar assim, escrevendo coisas sem nexo na Manchete sobre a minha vida particular, apenas para gastar meu tempo, apenas para preencher meu ócio com alguma coisa palpável, pena de galinha, enquanto lá fora a escuridão é inerte, mano (!)

Choveu bastante. Ouço o barulho de pingos e dos automóveis deslizando no asfalto molhado. A TV de 14 polegadas permanece o tempo todo desligada. O rádio toca-CD também. Apenas o computador funciona como uma espécie de máquina de escrever insaciável. Ouço agora o som de uma sirene. E daí? O que isso importa? Ou seria uma equipe de resgate, caso eu estivesse tendo um enfarte (?)

Não sei. A verdade é que emagreci três quilos e meus cabelos estão caindo vertiginosamente. Ou haveria fantasmas na kit? Não sei (?). Todos os dias, quando varro o cômodo-apartamento, recolho centenas de fios de cabelo, de todos os tipos, desde sobrancelha, pelos de nariz, pentelhos encaracolados e pedaços de unha..

Ou existiriam fantasmas habitando comigo essa kit maldita? Preciso mudar o quanto antes daqui. Segundo meus cálculos, se continuar perdendo pelos com essa freqüência, em menos de dois anos terei assumido a forma de um pavoroso Alien aff Montanha; ). Já volto. Parece que alguém está me chamando lá fora...